Cena Urbana / Coisas velhas..., por Vicente Serejo

Cena Urbana / Coisas velhas..., por Vicente Serejo

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Digo sempre, Senhor Redator, que os juntadores de livros velhos hão de ter alguma boa serventia nesse mundo. Ora, se uma coisa puxa outra, foi bom que Woden Madruga registrasse a notícia publicada na coluna de Anselmo Gois, em O Globo, sobre a palestra da professora e pneumologista Margareth Dalcolmo - ‘A tísica na literatura: da peste ao lirismo acadêmico’, agora que a tuberculose voltou a assombrar a este Brasil de doenças já controladas no mundo.

Nem precisa que voltemos às velhíssimas nevroses dos ‘Loucos’ Egrégios, verdadeiro clássico moderno da literatura universal, de Juan Antônio Vallejo-Nágera, traduzido ainda em 1979. Nem recuar aos tão esquecidos ensaios reunidos pelo médico e escritor Gastão Pereira da Silva – ‘Psicanálise dos Gênios, estudos sobre a loucura de célebres escritores’. Nem ao grave e eruditíssimo estudo de Jean Starobinski sobre a melancolia de Baudelaire diante do espelho.

Fiquemos por aqui, nesta aldeia que foi berço do escritor Peregrino Júnior, o segundo norte-rio-grandense a chegar à Academia Brasileira de Letras, isto depois do grande historiador Rodolpho Garcia que foi diretor da Biblioteca Nacional. Seu feito reúne ousadia num tempo em que certas conveniências venciam as verdades. Em 1938 ele espantou o mundo literário no Brasil com o seu ensaio ‘Doença e Constituição de Machado de Assis’, um monstro sagrado.

É, até hoje - Peregrino, nascido em 1898, já está morto desde 1983 - algo insuperável e tão importante que na sua segunda edição já integrava o grande elenco da Coleção Documentos Brasileiros, volume 171. Ninguém foi longe e tão detalhadamente, do ponto de vista clínico e documental, a registrar a epilepsia que atormentava o autor das ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’. Ele que chegou a imaginar ser um segredo perfeito que Carolina, sua mulher, sabia.

Uma noite tive oportunidade de conhecer pessoalmente Peregrino Júnior, nome literário de João Peregrino da Rocha Fagundes Júnior, o grande contista de Puçanga, Matupá e Mata Submersa, entre outros. Em 1998, nos cem anos de Peregrino, Pedro Vicente, então diretor da editora da UFRN, reuniu em ‘A Mata Submersa e outras histórias da Amazônia’ seus livros de contos com uma introdução de Dorian Gray, introdução que tem a dimensão de um belo ensaio.

Vive aqui um exemplar da segunda edição de ‘Doença e Constituição de Machado de Assis’, da Coleção Documentos Brasileiros. Foi presente de Oswaldo de Souza e com o valor de ter na sua folha de rosto a dedicatória de próprio punho de Peregrino Júnior, dizendo assim: ‘Ao caro primo Oswaldo de Souza, cordialmente, com admiração afetuosa de Peregrino. Em 02.II.76’. Como diria Câmara Cascudo, nada tenho mais a acrescentar e nem foi perguntado.

PALCO

BRILHO - Gustavo Porpino, filho de Selma e Geraldo Batista, fará uma série de conferências em Paris, Londrese Escandinávia, representando o Brasil. Geraldo anda todo ancho. Só pode.

MERMOZ - Vem ai um ensaio biográfico sobre a vida e os feitos de Jean Mermoz, piloto da Latécoère que pousou em Natal na história da travessia aérea comercial do Atlântico Sul, em março de 1930.

COM... - Detalhe que torna o livro importante: a pesquisa e as notas são do escritor é de Roberto da Silva Santos que anotou dois livros de cartas de Câmara Cascudo. Roberto é um anotador admirável.

MACHADO - Sairá com o selo da editora Caravelas a reunião dos ensaios do escritor Ivan Maciel de Andrade sobre Machado de Assis. Já tem título: ‘Machado de Assis que eu Li’. Ivan, nosso machadiano.

NOVENTA - O ‘Livro de Poemas’, publicado em 1927, completa noventa anos e é por isso que será tema de estudos nos dias 26 e 27 no auditório do Instituto Ágora. Humberto Hermenegildo coordena.

ESTILO - Inesperada e muito dura a decisão do Papa Francisco ao afastar de suas funções junto ao Banco do Vaticano o cardeal Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, e mais três outros cardeais.

CANGAÇO - Para Diógenes da Cunha Lima: o livro do alemão Ronald Daus está traduzido no Brasil desde 1982, portanto, há 35 anos. É sobre poesia popular no ciclo épico do cangaço dos cangaceiros.

ALIÁS - Cascudo não tem obra específica sobre o cangaço. Tem verbetes no seu Dicionário do Folclore e citações em ‘Vaqueiros e Cantadores’ e ‘Flor de Romances Trágicos’. Não ousou nessa área.

MAS... - É instigante o tema Cascudo e o cangaço. Nessa área, Cascudo foi um conservador, influência do pai, certamente. Hoje alguns tabus ruíram. A bibliografia contemporânea tem novas visões.

ERUDIÇÃO - No seu artigo ‘O comunista está nu’, domingo, página três da Folha de S. Paulo, o empresário Flávio Rocha esbanjou erudição: foi da revolução bolchevique ao filósofo Antônio Gramsci.

BRILHO - Muito elogiada por quem ouviu a palestra de Iaperi Araujo, o nosso mais qualificado crítico de arte, sobre a obra de Newton Navarro. Na abertura da exposição na sede do Instituto Histórico.

SURUBA - Um dos destaques da coluna ‘Para ler, ver e ouvir’, na Playboy, de outubro, é o livro ‘Suruba para colorir’, reunindo artistas brasileiros e do exterior. Já vendeu quarenta mil exemplares.