Cena Urbana / Ladrão que rouba..., por Vicente Serejo

Cena Urbana / Ladrão que rouba..., por Vicente Serejo

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Há uma equação que a cada dia, a julgar pelas pesquisas nacionais e locais, ganha sentido e plausibilidade: a de que se repete com o PT aquele velho sentimento da sabença popular e universal de que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. É admissível, quando nada, se o raciocínio partir do princípio de que a corrupção, mesmo desenfreada, tem sido forte na faixa a partir da classe média para cima. Sem maior repercussão e efeitos, de fato, sobre a vida das camadas mais carentes.

Aliás, é possível que dois sentimentos se cruzem nesse arco de especulação: aquele que nega sensação de prejuízo ao brasileiro que melhorou de vida nos governos PT; e a percepção, cada vez mais nítida, de queos crimes de Lula também foram cometidos pela maioria dosparlamentares do PMDB, PSDB e DEM. Pelo menos do ponto de vista de acusações que lhe são igualmente feitas, inquéritos e prisões, a classe política, para o brasileiro,ficou sem referênciasnos quadros políticos.

É possível que não seja descartável uma terceira hipótese: um excesso de rigor sobre Lula, a ponto de fazê-lo vítima, e na hora em que são lançadas pelo mesmo Ministério Público as mesmas e sombrias suspeições que justificaram a queda de Wilma e a condenação de Lula. É deprimente, um espetáculo de horror, descarado e cínico, o que tem feito o presidente Michel Temer para não ficar sob a investigação do MP. Mesmo com aquela sua mala cheia de dinheiro correndo no meio da rua.

O brasileiro toma conhecimento que a exemplo de hoje também foram ‘comprados’ os votos que derrubaram Dilma. E que se foi bom retirá-la, o que era de correto desceu no esgoto da chegada de Michel Temer ao Planalto. E que os mais conscientes já estão convencidos de que a denúncia impetrada na Justiça Eleitoral, se esta tivesse sido célere e rigorosa no julgamento, naquela hora, teria retirado os dois, Dilma e Temer, e convocado eleições para um governo novo eleito pelo voto.

O resultado desse imbróglio todo, para usar a expressão batida, é o que já faz o brasileiro ter certeza na sua decepção coletiva. Não se trata de tentar justificar o prestígio popular de Lula com as mazelas igualmente protagonizadas pelos que tomaram o poder legalmente, numa sociedade que tudo relativiza, inclusive o crime. É só para constatar que não se pode ferir a lógica coletiva tão descaradamente imaginando ser lícito perdoar a Temer e vê-lo como um presidente da República.

Claro que as forças se formam e sem diluem ao longo do tempo. Temer sabe que, até lá, seus asseclas nos plenários da Câmara e Senado encontrarão a saída, através de emendas generosas que lavem essas acusações de hoje quando ele não for mais presidente. Ou alguém, em sã, sadia e sábia consciência, imagina já em 2018 que Temer responderá por esses inquéritos e pagará pelos crimes que cometeu? Neste Brasil inzoneiro? De coqueiros que dão coco e regados pelo velho ufanismo?

PALCO

PESTE - Não faltava mais nada: a Vila Amélia, em São Paulo, vizinha do horto florestal, sofre uma invasão de macacos transmissores da febre amarela. E população em pânico não sabe mais o que deve fazer.

SE... - Quem matar um macaco comete crime ambiental inafiançável e vai para cadeia. Se deixá-los livres, invadindo as casas em busca de comida, transmitem a febre amarela. O jeito é chamar Sérgio Moro.

PELVIS - Não foi a um bom grupo de mulheres que a recente reportagem da Folha de S. Paulo sobre plástica estética e clareamento da genitália. A cirurgia já se faz aqui, há uns bons anos, e com muito sucesso.

JOGO - Não há coisa mais inútil no Brasil do que acabar ou limitar o uso de veículos oficiais. Quem duvidar basta procurar saber quantos carros estão alugados nos poderes do RN, por exemplo. São dezenas.

A... - Começar por quem não é poder, a Prefeitura de Natal, cujo prefeito, quando deputado, propôs a lei de extinção. Todo secretário municipal tem carro e motorista. Discretamente uma chapa particular.

ÚNICO - O único poder que os seus integrantes usam carros particulares, portanto, cumpre a lei estadual, e o Legislativo. Inclusive a Câmara Municipal. Ainda assim, são sempre os mais duramente criticados.

AVISO - Esta coluna não julga a vida pessoal dos filhos. Não poderia fazê-lo, por tão descabido. Julga, e isto sim, o desempenho na atuação pública, afinal foram eleitos como se fossem modelos de renovação.

NEM - Julga netos, principalmente se estes não seguem o bom exemplo dos avós. Seria ungi-los de uma consciência democrática que não quiseram herdar. Perdidos que ficaram no grande mar da ambição.

APÓSTOLO - O historiador Cláudio Galvão está imerso na biografia de Varela Santiago que revelar esse homem como nosso apóstolo do bem, no seu dizer. Cláudio é um biógrafo rigoroso e esmerado no que faz.

PERDA - O mercado de carnes até agora não conseguiu substituir a qualidade do cordeiro que Bira Rocha produziu no RN. Sem sucessor, o cordeiro Lanila foivítima do fastio empreendedor dos seus filhos.

CÉU - Paulinho Araujo, longe ou perto, onde estiver, entre os muros da Cosern ou nas cercanias das terras do Totoró: os doces da veneranda D. Branca adoçam o céu da boca e da alma também. Gratíssimo.

FLORADAS - A primavera atlântica dos morros cumpre o seu ciclo de floradas: depois do roxo das sucupiras já esmaecendo, explodem os paus d’arcos rosados e deve vir por ai, dourado, o amarelo forte dos ipês.