Cena Urbana / Marcus Accioly, por Vicente Serejo

Cena Urbana / Marcus Accioly, por Vicente Serejo

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Reclamo sempre da solidão dos obituários. Sei da glória de um deles, o obituário do New York Times, que acabou em livro - ‘O Livro das Vidas’ - lançado no Brasil pela Companhia das Letras. É que lá, escrevê-los, é uma arte, enquanto que aqui, e apesar do esforço da Folha de S. Paulo, cai numa certa banalidade pobre e apenas noticiosa. Lá, até desconhecidos e quase desconhecidos viram personagens; aqui, mesmo os que mereceriam louvor, acabam caídos nos adjetivos comuns.

Na edição de terça-feira, da Folha, foi outra vez assim. Estava lá, no pequeno rodapé da página seis do caderno Cotidiano, como sempre: ‘Marcus Moraes Accioly (1943-2017) - Um poeta pernambucano que sabia das coisas’. O título é simpático, mas não basta para retratar a grandeza da obra de um intelectual do seu porte. Aliás, como é da vida, derrotado pela Academia Brasileira de Letras quando disputou uma vaga com o então vice-presidente Marco Maciel e seu livro de discursos.

Conheci Accioly numa mesa do agradável bistrô Georges que ficava na Praça do Jacaré, em Olinda, levado pelas mãos de Pedro Vicente que viu aqui na estante vários dos seus livros e por isso articulou a viagem e o jantar. Comecei a conversa perguntando como era ser poeta no Recife de Carlos Pena Filho, Joaquim Cardoso, Ascenso Ferreira, Manuel Bandeira, João Cabral. Ele, bem humorado, atirou certeiro no olho da indagação: ‘É tão difícil que alguns dias a vontade é de chorar’.

Jantamos bem, sem pressa e sem demora, entre fartas doses de uísque. Levei seu livro mais antigo - Poética - autografado para Oswaldo Lamartine, em Natal, 1977, e foi como usar a chave mágica. Nasceu ali uma simpatia, até pelo bibliófilo que ele acumulava com o destino da poesia. Nisto o título da Folha é exato: sabia das coisas. Criador de cão de raça que levava nas caminhadas à tarde, ao longo da Av. Beira-Mar, em Olinda, onde morava, à época, no número 2171, como anotei.

Uma vez esteve, também a convite de Pedro Vicente, no Conselho Estadual de Cultura, ele que presidia o conselho pernambucano com esmero. Ali ele já vivia o prazer de um grande sonho que foi escrever seu longo poema ‘Latinoamérica’ que consumiu, com anexos e as notas indispensáveis, quase seiscentas páginas. Uma coedição Topbooks-Biblioteca Nacional. Para ele, uma luta com as palavras que ele ergueu como um inventário que só os grandes poetas realizam olhando para o futuro.

Na folha de rosto do seu Latinoamérica, escreveu o que, por si só, atesta o carinho de nossa convivência: ‘Vicente Serejo, amigo, receba, neste reencontro, além da alegria, amizade, de minha admiração, estes sóis e gelos da América, este possível inventário do continente. Este livro que é uma luta (vale o sentido duplo) de palavras! Marcus Accioly, Natal, 31.maio.2005’. Seu coração parou de bater na manhã do dia 21, aos 74 anos, apenas uma hora depois de pedir uma morte que fosse calma.

PALCO

GRAVE - Numa empresa privada o quadro financeiro do governo seria de colapso: a despesa da folha dos inativos superou sua folha de servidores ativos. Inativos: R$ 227 e os ativos R$ 219 milhões mensais.

PIOR - Diante da insolvência, e como o governo não abre mão dos programas, alguns deles claramente populistas, para priorizar o pagamento de salários, evitando a tendência de agravamento do quadro.

SINAL - A reação com sinal de forte insatisfação já aflora na área policial, setor que mais tem contribuído para desaprovação do governo, já na faixa de 75%, o que será fatal se não for superado até dezembro.

ALIÁS - Um dia o governador se convencerá de que o erro do seu governo foi apostar

no modelo de planejamento que em tempo de crise gravenão priorizou as finanças dos dois anos iniciais da gestão.

ÁGUA - O professor João Abner, doutor em recursos hídricos, hoje aposentado da UFRN, é o novo consultor da Caern para planejar o plano de uso racional da água antes que seja muito tarde. E trágico também.

MISSÃO - Abner vai sugerir pequenas adutoras para gerar um aproveitamento das nossas reservas aquíferas antes que cheguem ao esgotamento. E algumas cidades poderão ficar livres de um colapso absoluto.

PRESENÇA - O escritor João Almino, mossoroense hoje na Academia Brasileiras de Letras, é o convidado da Festa Literária de Natal. Ao lado do nomes de Ruy Castro, Zuenir Ventura, Ana Miranda e Antônio Cícero.

CRATERA - O Dr. Tomaz Pereira mandou refazer o serviço na Rua Vicente Farache, aqui em Morro Branco, preenchendo a depressão. Ainda ficou um afundamento, mas este sóvai voltar no próximo inverno.

PILÃO - Por falar em cratera: na pista da Hermes da Fonseca, no trecho entre a Jundiaí e a Alexandrino de Alencar, tem uma boca-de-pilão. Pequena, quase invisível, e bem perigosa para os que trafegam ali.

MEDALHA - O professor Joanilson de Paula Rego recebe, hoje, na Câmara Municipal de Macaíba, a medalha do Mérito Alberto Maranhão. Na sessão solene dos 145 anos de emancipação do município de Macaíba.

LIMITE - Parece que o secretário de serviços urbanos, Jonny Costa, começa a perceber que depois dele e do prefeito, a quem serve, o grande guardião da lei, no caso dos camelôs, é o nosso juiz Cícero Martins.

TALVEZ - Assim ele um dia acabe compreendendo que a força do cargo público deve ser posta a serviço da dignidade da vida humana e para preservação do bem estar individual e coletivo. Mesmo de camelôs.