Cena Urbana / Viagem à ilha, por Vicente Serejo

Cena Urbana / Viagem à ilha, por Vicente Serejo

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De setembro já foram, um a um, todos os seus dias. Veio outubro, e os ventos de agosto ainda não foram embora. Ficaram rodopiando nas calçadas, como se teimassem. Quem sabe, esperam, festivos, as lapadas do vento Leste, aquele do poeta Gilberto Avelino quando avisa, entre rosas de sal, e ventos cortados a navalhadas, numa ode que começa assim: ‘Ó vento Leste que acende arco-íris / no silêncio dos velhos trapiches, / e acordas o sono quieto dos morros’.

Ninguém, Senhor Redator, que tenha vindo de tão longe e de tão íntimas recordações, abandona na beira da estrada a sua carga de saudades. Os cacarecos vão ficando amontoados nos ombros e entranhados na carne como se fizessem parte da vida, quando não da própria alma. Dói saber da eterna permanência das coisas que vieram naquela manhã e nelas gravado o rosto de Chico de Gustavo seguindo, com o seu misto, o desenho sinuoso da estrada antiga.

As notícias são como fagulhas. Quando chegam, é como se riscassem um fósforo na ilha da memória e incendiassem as saudades flamejantes. Outro dia, foi assim. Veio a notícia da morte do empresário Francisco Cabral e um mundo de lembranças desabou sobre esta mesa. Não era o dono do Expresso Cabral que desaparecia. Este pertencia ao mundo de hoje. Era mais um personagem do meu mundo antigo, talvez o último, que partia para nunca mais voltar.

Chico de Gustavo, desde seu pai que ele carregava no próprio nome, tinha uma nobre missão no mundo que foi meu, onde fui sesmeiro e agrimensor. Transportava a todos e a todos atendia. Primeiro, num misto de boleia, de passageiros e cargas. Depois, um pequeno ônibus, e por fim esses modernos ônibus de hoje, compridos, janelas altas. Ainda tenho nos ouvidos o ruído dos ferros tinindo na passagem pelavelha Ponte de Igapó anunciando a chegada a Natal.

Esse gosto de infância vem quando lembro o poema triste de Manuel Bandeira. Ali - primeiro na Prudente de Morais, numa casa de janelas vermelhas e um jardim de rosas, e depois numa casinha de arcada na Potengi - era a casa da minha avó Edith. Um dia, quase noite, vi uma passeata de Aluizio Alves. Aquele homem magro, agitando um lenço verde, e uma voz feminina anunciando ao mundo que ele vinha do sertão, lá do Cabugi. Nunca mais esqueci...

Até hoje não creio que as coisas da memória precisam ser muito reais, verdadeiras. Pra quê? É melhor que aquele mundo que perdi seja feito assim, mágico, entre o real e o irreal. De um silêncio onde todas as coisas pareçam mortas. E, no entanto, vivas se uma notícia risca um fósforo e a chama ilumina a ilha da memória cercada de solidão por todos os lados. Ai dói. Não vou negar. Ali, naquela ilha, brilha o riso do meu pai e por isso vem uma saudade medonha...

PALCO

PACOTE - Coube ao vice-governador Fábio Dantas a tarefa espinhosa de assinar e defender junto ao Poder Legislativo o limite salarial dos servidores do Estado, enquanto o RN doava santos ao mundo.

ALCANCE - A lei reduz salários do Ministério Público e Tribunal de Contas, Procuradoria Geral, auditores e que tais, já que não pode reduzir os salários do Legislativo e do Judiciário? Esta é a discussão.

PRAZO - Se a medida, pelos cálculos do governo, tem o objetivo de implantar a partir de janeiro a folha do Executivo, a Assembléia será o palco das discussões. E dirá a quem representa de verdade.

NOTA - Pífia a nota da Federação das Indústrias de apoio aos industriais Nevaldo e Flávio Rocha. Era melhor não ter publicado tal a inconsistência. Típica das instituições burocratizadas, sem líder.

ALIÁS - Foi por não ter instituições fortes e representativas voltadas para a defesa da livre iniciativa que o conflito venceu a negociação. Estão ocupadas pela conveniência e geridas pela politicagem.

FARNEL - A OAB incluiu na sua festa de 85 anos não o debate sobre o Brasil de hoje, rico de contradições e desafios, mas o ‘churrasco da advocacia’. É só na maminha, picanha, chuleta e coxão mole.

CRISE - Dia 9, 18h30, auditório Reitoria, UFRN, os professores Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça de Dilma Rousseff, e Rubens Casara debatem em Natal sobre o tema ‘Democracia em Crise’.

LOGO - Depois do debate, o professor Rubens Casara autografa na UFRN seu livro ‘Estado Pós-Democrático’ - neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis’, edição da Civilização Brasileira.

VOZ - Há cinquenta anos, em outubro de 1967, calava para sempre a voz de Genar Wanderley, aquele que embalou a cidade nos microfones da Rádio Poti. Desde o tempo que era Rádio Educadora.

FEIO - O Dr. Tomaz Pereira, da secretaria de obras da Prefeitura, que conheço desde os velhos e doces veraneios da Redinha, precisa fazer uma visita à Rua Vicente Farache, aqui, em Morro Branco.

SE... - Visitar verá com os próprios olhos o serviço que foi feito nas crateras abertas na rua. Tapadas, agora, mas tão fundas quanto antes, quando da dita fuga de material. Quem fiscalizou a obra?

PEGADINHA -Não há como negar: o deputado Fernando Mineiro flagrou o verdadeiro sentido da mensagem do governo que limita o salário do servidor estadual: exterminar os planos de cargos e salários.