Eu vi o mundo…Ele começava em Recife, por Marcos Nóbrega

Eu vi o mundo…Ele começava em Recife, por Marcos Nóbrega

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Esse é o título de importante obra do pintor pernambucano Cicero Dias executada entre os anos de 1926 e 1929 e que bem retrata o sentimento comum entre os pernambucanos. Cresci no subúrbio do Recife e meu horizonte não se expandia além de ser servidor público, após fazer uma faculdade e prestar concurso público. Meu pai era servidor e minha mãe professora primária. Não havia nenhuma ambição de viajar, de conhecer o mundo. Alias, não tínhamos nem sequer um amigo ou vizinho que servisse de exemplo (ou inveja).

Na minha rua havia um menino que tinha ido aos Estados Unidos e diante do feito tão extraordinário virara ponto de referência. Onde mora fulano? Duas casas depois da do menino que foi para os Estados Unidos! Tinha outro colega na escola que, por conta da carreira acadêmica do seu pai, também tinha experiência internacional. Era considerado um astro, invejado por nós e cortejado pelas meninas. Imagine só, falar inglês com 11 anos de idade. Um herói! Jogava com meus amigos “War: o jogo da estratégia” e ficava pensando se Dudinska e Vladivostok realmente existiam.

Apesar do ambiente de pouco incentivo, sempre tive a vontade de conhecer outros lugares, de interagir com culturas, aprendendo e compreendendo outras realidades. Logo percebi que um caminho viável seria o estudo em áreas internacionalmente relevantes e o mestrado e doutorado foram de uma importância enorme. Até que resolvi ter uma experiência internacional e pensei qual seria o melhor lugar do mundo para ir. A responda veio logo, Harvard. Sim, mas isso seria quase impossível, nunca nenhum professor da Faculdade de Direito do Recife estivera lá. Eu não conhecia ninguém. Coloquei aquilo na cabeça e chequei os requisitos necessários. Fiz aplicação com enorme expectativa. Nesse momento ninguém apostava em mim. Minha própria mãe dizia, desista! Para que inventar isso? Um amigo chegava a dizer: “por que você vai fazer isso com sua família? Tirar seus filhos pequenos do colégio, expondo a um ambiente muito diferente”.

Pois bem, fui aceito como Visiting Scholar na Harvard Law School e em Yale Law School em setembro de 2007 e o dia em que recebia resposta foi um dos mais felizes da minha vida. Fui com minha esposa e os três filhos pequenos (9, 7 e 4 anos). Isso representou uma grande transformação na minha vida e da minha família. Sou um profissional de classe média, de posses medianas, mas o patrimônio cultural e intelectual que acumulamos foi imenso. Para meus filhos, tomar um sorvete em Harvard Square era algo natural. Talvez somente hoje eles tenham uma razoável dimensão do feito.

Depois disso tive a oportunidade de dar aulas e conferências nos cinco continentes e em lugares tão diferentes quanto Costa Rica, Suazilândia, Singapura ou Casaquistão, interagindo com professores, alunos, representantes de agências internacionais e oficiais de Governos. Ouvi muito mais que falei. Aprendi muito mais que ensinei.