Fora da ordem, por Sheyla Azevedo 

Fora da ordem, por Sheyla Azevedo 

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Sheyla Azevedo publica seus textos às terças-feiras no NOVO 

A Fundação Perseu Abramo, em pesquisa sobre a Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil Intolerância e Respeito às Diferenças Sexuais, divulgou o grau de aversão ou intolerância a determinados grupos de pessoas. No topo da lista, ambos com 17% de aversão estão as pessoas que não acreditam em Deus e os usuários de drogas. Garotos de programa e transexuais (aquelas pessoas que mudam de sexo), ficam em segundo lugar, com 10% dos entrevistados admitindo que, simplesmente as odeiam. As pessoas não têm mais vergonha de odiar.

Pegando só esses quatro grupos como uma pequena amostra, já dá para perceber o quanto as questões de sexualidade e crenças ainda lideram os rankings de intolerância no nosso país, que de uns tempos para cá tem andado para trás. Quando eu imaginaria que um movimento como o MBL seria capaz de influenciar um banco a cancelar uma exposição na qual algumas obras íam de encontro ao pensamento conservador e retrógrado? Quando? Agora, claro! No ano 18 do século XXI. Não é mais vergonhoso ser retrógrado, intolerante, xingar e gritar os outros "diferentes" quando algo é construído fora do seu quadrado.

Assistimos há pouco mais de um ano - alguns babando em cima da bandeira e querendo trucidar até joaninha no jardim, porque era vermelha - um golpe institucional que começou com uma conspiração legitimada pelo legislativo e judiciário contra uma mulher que foi eleita pela vontade soberana do povo brasileiro. Agora, o presidente golpista, atolado em denúncias e obviedades que apontam para sua total inclinação aos velhos acordos da elite branca brasileira se diz indignado e manda uma carta aos deputados declarando que há uma "conspiração" contra ele. Vejam só. Agora o que se faz contra ele é conspiração.

Nunca foi tão certo aquele refrão do poeta que dizia "Alguma coisa está fora de ordem". Movimentos conservadores barram o direito da livre expressão artística; pessoas que não se sentem bem com o gênero em que nasceram são odiadas por pessoas que, provavelmente, praticam o ódio de um modo esportivo e com poucos propósitos edificantes, porque simplesmente têm dificuldade de respeitar o direito do outro de ser diferente.

E assim, nessa ordem que mais fere que trata; que mais fala de honra que da verdade; que coisifica em caros desejos o corpo; que desorganiza a frustração de sermos quem somos, exigindo cada vez mais um corpo perfeito e refeito e refeito e nunca satisfeito; nessa ordem que se preocupa mais com a grama do vizinho do que com a lama do Congresso; nessa ordem em que magistrados depenam o erário e nos perguntamos, quem poderá nos defender dessas aves de rapina do Judiciário? 

Pessoas se preocupam mais com quem não se importa com essa invenção humana chamada Deus - alguém conhece um outro animal que cultue deuses? - e com pessoas que querem viver plenamente o seu desejo. Alguma coisa está realmente muito fora da ordem.