Os bodes e as cabras, por Sheyla Azevedo 

Os bodes e as cabras, por Sheyla Azevedo 

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Sheyla Azevedo publica seus textos às terças-feiras no NOVO 

"Quem tiver suas cabras que as prendam, porque meus bodes estão à solta". O ditado era mais ou menos esse e se referia, trocando em miúdos, ao sentido de liberdade de mulheres e de homens. O feminino como algo que tinha de ser trancado, guardado, encarcerado. Brincar de queimada, na rua até tarde? Nem pensar, se você fosse menina. Só os meninos tinham esse direito. Dentre muitos outros na esfera pública e púbica.

Os meninos podiam fazer xixi na rua. No meio da rua mesmo, num canto de poste, tal qual os cães os fazem. As meninas não podiam nem andar apenas de calcinha. Parece banal, mas ainda hoje tenho medo de andar sozinha na rua. Claro que em se tratando de Natal isso tem outras implicações. A segurança pública realmente não é o forte da Cidade do Sol. Mas, focando nas questões e estereótipos de gênero, é como se nós mulheres pudéssemos menos, porque não temos o falo pendurado no meio das pernas. Não pode jogar futebol com os coleguinhas, porque menina não joga. Não pode ficar até tarde na pracinha, porque menina não fica até tarde na pracinha. Basta ser mulher para vir uma série de "não pode"!

Mesmo quando "podemos" mais, quando estamos num cargo de chefia, por exemplo, o chão é de vidro ou a escada é quebrada. O nível de exigência é muito maior. E é como se estivéssemos numa armadilha que o patriarcado montou para provar que não somos (mais) capazes que um homem no comando. Um exemplo prático? Vadão e Emily Lima. Ela passou apenas 10 meses comandando a seleção feminina de futebol. Nesse tempo fez sete vitórias, um empate e cinco derrotas. Ela saiu porque esperavam "resultados" que segundo eles não chegaram. Nesse período ela só participou de amistosos. Nem de jogos oficiais ela teve chance de chefiar as meninas donas do grande futebol brasileiro, as quais, embora muito boas, têm um salário bem menor que os dos jogadores do melhor futebol do mundo, o do Brasil, como acreditam alguns.

Ser uma "cabra" ou "cabrita" que sai do cercado, implica em correr sempre mais riscos que os bodes que já estão na rua. Geralmente, mulheres são chamadas para cargos de chefia quando têm de debelar crises. Em outras vezes, elas são colocadas em verdadeiras armadilhas de sabotagem. Elas sentam na cabeceira da mesa de reunião, mas os outros 99% são bodes que falam mais alto, sempre têm razão, desqualificam suas ideias e desrespeitam suas opiniões. É um cargo de chefia de fachada. Há exceções? Sim. Mas não o suficiente para ignorarmos o fato de que ser mulher é mais trabalhoso, mais arriscado e mais cobrado que ser bode. Digo, que ser homem.

Para o pensamento ainda reinante, ser feminina é ser frágil, delicada, que precisa de proteção e não consegue fazer as coisas sozinha. Mas só vale se for uma mulher assim. Se um homem apresentar essas características é bixa, viado, florzinha ou na melhor das hipóteses, fraco. Ou seja, nessa visão estereotipada, o feminino é sempre inferior, porque não é forte, não é ágil, não é determinado, capaz ou corajoso, como o masculino é. Uma mulher no poder, tem que ser como um homem no poder. E eu já vi tanta mulher tentando repetir esse padrão no trabalho, fazendo piadinhas sexistas, forçando a barra e tentado "se igualar" aos cuecas, privilegiando os homens em detrimento às mulheres.

A esperança é que todos nós, de um jeito ou de outro, exercitemos a sensibilidade e nos olhemos como as crianças olham o mundo, sem cor ou gênero definido. Isso mesmo, essa história de que menina usa rosa e menino usa azul é uma construção. É uma babaquice de uma construção social que as mães e pais caem feito patinhos e deixam seus filhos monocromáticos. Menino pode usar qualquer cor e menina também. Ponto. Minha cor preferida é azul, e daí?

Exercitando a sensibilidade, podemos trabalhar outros gestos humanos como a gentileza, a tolerância e o respeito. Essa receitinha tão básica pode levar a nós, que habitamos esse planeta agora, e às outras gerações a um caminho de mais igualdade e justiça para as cabras, os bodes e, sobretudo, para os seres humanos.