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Eliabe
 Subtenente Eliabe Marques fala sobre as dificuldades enfrentadas pelos policiais e bombeiros militares, destacando que o Governo do RN tem até dia 30 de setembro para dar respostas às reivindicações / João Ricardo Correia

Subtenente Eliabe dispara: “Nunca me enganei com Fátima Bezerra”

“Nunca me enganei com Fátima Bezerra. Estou há 26 anos na corporação e ainda não vi um plano de valorização dos profissionais da segurança pública por parte dos gestores, durante todo esse tempo. Nossa corporação passa por déficit de pessoal, tem salários a receber, não tem atendimento médico satisfatório, viaturas são retidas por falta de pagamento, muitos policiais precisam buscar na Justiça os direitos negados a eles. A situação é muito complicada”. As afirmações são do presidente da Associação dos Subtenentes e Sargentos Policiais Militares e Bombeiros Militares do Rio Grande do Norte, subtenente PM Eliabe Marques.

Numa entrevista exclusiva ao Novo Jornalismo, na sede da entidade que dirige desde 2008, Eliabe Marques analisou vários aspectos enfrentados pela Polícia Militar, alguns deles já publicados recentemente por este portal, como retenção de viaturas por falta do pagamento de aluguel e policiais com dificuldades financeiras por causa dos salários em atraso.

O “sub Eliabe”, como é mais conhecido na tropa, foi candidato a vereador em Natal (2016) e a deputado estadual (2018). Não obteve sucesso nas urnas, não descarta uma nova candidatura, mas ressalta que suas declarações nesta entrevista são independentes de questões político-partidárias. “Defendo que pessoas do bem, competentes, se envolvam com a política, até para evitar que pessoas sem qualificação ocupem esses lugares. O desmando encontrado em muitos setores dos governos por aí é, justamente, provocado pela ausência de pessoas competentes. Estou aqui falando como representante legítimo dos sargentos e subtenentes policiais militares e bombeiros militares do Rio Grande do Norte, cargo que ocupo com muita honra, transparência e responsabilidade desde 2008”, informa.

Eliabe Marques critica o fato de, assim como tantos outros milhares de servidores públicos, policiais e bombeiros militares ainda não tenham recebido o salário de dezembro e o décimo terceiro salário de 2018. “A Polícia Militar do Rio Grande do Norte só está prestando serviço à população graças à abnegação e responsabilidade dos seus homens. Já chegamos a agosto e ainda não temos informação se o Governo do Estado terá dinheiro para pagar o décimo terceiro deste ano”, disse.

O presidente da ASSPMBMRN estranha o fato de o Governo do Estado ter anunciado que usaria recursos dos royalties do petróleo paga quitar as dívidas salariais, depois falou em vender as contas do Estado, mas, nas últimas semanas, não informou mais nada a respeito. “Pelo que percebo, infelizmente, parece não termos previsão de quando vamos receber o que é nosso direito. Não estamos pedindo favor. Trabalhamos e devemos receber”, destaca.

SEM MUDANÇA

Para ele, a governadora Fátima Bezerra está no mesmo caminho dos seus antecessores, quando não valoriza os servidores. “Não me iludo com Governo. Nunca me enganei com Fátima Bezerra, tanto que não votei nela. Desde o governo Rosalba, passando por Robinson Faria e agora Fátima, viaturas são retiradas da PM, provocando falha no patrulhamento, por falta do pagamento da locação, o que prova não haver um planejamento. A PM deveria ter 13.466 homens e tem pouco mais de 7 mil. Somente este ano, 400 policiais militares foram para a reserva e a expectativa é que esse número chegue a 800 até o final do ano. Além disso, temos cerca de 400 policiais de licença médica. Não há concurso, não há reposição desses homens, ainda temos policiais à disposição de outros órgãos do Governo, ou seja, a Polícia Militar trabalha com algo em torno de 50 por cento do que deveria. Em 2010, éramos cerca de dez mil policiais militares; nove anos depois somos pouco mais de 7 mil. É ou não é falta de planejamento, descaso com a segurança da população e desvalorização dos policiais?”, questiona, acrescentando: “A consequência disso é sobrecarga de serviço, estresse e comprometimento da qualidade do serviço prestado”.

O subtenente Eliabe diz que ouve relatos diários de situações constrangedoras enfrentadas por policiais militares que estão, por exemplo, vendendo seus carros, retirando filhos de escolas particulares, tendo planos de saúde cancelados por falta de pagamento, deixando de pagar aluguel de casa. Segundo ele, é comum receber em seu telefone “pedidos de socorro” feitos por mulheres de policiais e bombeiros militares. “Quando um policial se sacrifica para botar um filho numa escola particular, vai morar em um condomínio em bairro considerado melhor, não é por ostentação, é por questão de segurança, de sobrevivência, pois muitos vivem ameaçados, temem pela segurança da família e precisam sair dos bairros onde nasceram e cresceram para tentar buscar a sobrevivência, mas com a falta de dinheiro provocada pelo atraso de pagamento, muitos estão fazendo o caminho de volta, correndo sérios riscos. Ou então terminam se sacrificando ainda mais fazendo os ‘bicos’, o que é ilegal, mas termina sendo uma solução para muitos dos nossos colegas”, alerta.

DIÁRIAS, SERVIÇO MÉDICO E AUXÍLIO-FUNERAL

Nossa redação recebeu informações acerca de uma artimanha que estaria sendo usada pelo Comando Geral da PM, para ter policiais extras nas ruas, fazendo patrulhamento, sem precisar pagar as diárias operacionais. Eliabe Marques esclarece que essa reclamação é referente à convocação para o Curso de Recapacitação de Policiais, destinado aos cabos. “Esse curso exige, entre outras coisas, deslocamento de policiais que estão no interior, por exemplo, e exames clínicos que devem ser pagos pelos policiais, acredito que uns 200 reais por cada cabo. Como é que os policiais que enfrentam tantas dificuldades financeiras vão ter dinheiro para gastar com transporte e exames?”, indaga. “Com esses cabos no curso, eles podem ser empregados no policiamento sem a necessidade do pagamento das diárias operacionais. As diárias operacionais devem ser usadas em momentos de extrema necessidade, quando se precisa de reforço no policiamento, mas os Governos do Rio Grande do Norte têm usado isso como regra, como política de segurança pública, lamentavelmente”, reforça.

O atendimento médico é outro ponto criticado por Eliabe Marques, recordando que o Hospital da Polícia Militar, em Natal, já foi praticamente exclusivo para os policiais e seus familiares, e contava, inclusive, com atendimento de emergência. “Hoje, um policial que sofre um acidente, que recebe um tiro é levado para o mesmo hospital que, muitas vezes, está o bandido que entrou em confronto com ele. É inadimissível o policial compartilhar o mesmo espaço com um marginal. Hoje, o Hospital da PM foi entregue ao SUS e o atendimento é precário, sem falar no Centro Clínico, no bairro do Alecrim, que também vive com equipamentos quebrados, faltam reagentes para os exames. Já conversamos com gestores da Saúde da corporação, mas nenhuma melhoria foi sentida”, lamenta o subtenente.

Eliabe informa que cerca de 70 por cento das demandas da assessoria jurídica da entidade que comanda são relacionadas a direitos negados aos policiais e bombeiros. “São questões referentes a nivelamentos, promoções concedidas e não pagas e até auxílio-funeral, que deveria ser pago em 48 horas e tem caso que passa um ano para haver o pagamento”.

PRESENTE E FUTURO

Eliabe Marques explica que duas são as pautas prioritárias dos policiais e bombeiros militares: pagamentos das folhas atrasadas (2018) e reestruturação do subsídio (salário). “Nessa última reunião com o Governo, em junho passado, foi criado um grupo de trabalho e ficou acertado, em acordo com a categoria que estava mobilizada em frente à Governadoria, que o prazo é até 30 de setembro para termos uma resposta. A Polícia Militar do Rio Grande do Norte está há cinco anos sem ter, sequer, a atualização da inflação, o que representa uma defasagem salarial de 60,48%, isso é injustificável, enquanto outros servidores receberam reajustes. Não temos nada contra quem recebeu o benefício, mas não aceitamos essa discriminação, essa desvalorização, logo contra os profissionais que trabalham com a segurança, que arriscam as vidas para salvar a sociedade”.

Áudios no WhatsApp, em grupos formados basicamente por policiais e bombeiros militares, afirmam que a presença de representantes da Associações não será aceita na mobilização de segunda-feira, 12, quando haverá uma nova reunião de representantes dos PMs e bombeiros com o Governo. Sobre isso, Eliabe disse não entender o motivo dessa suposta revolta, pontuando que existe uma comissão formada pelos representantes que foram eleitos e, portanto, estão legitimamente respaldados para tal. “Compreendo a insatisfação da categoria, mas eu também estou com duas folhas para receber, também estou enfrentando dificuldades. Se pairam quaisquer dúvidas sobre nossa gestão, toda nossa movimentação financeira da Associação está à disposição dos associados, sem nenhum problema. Nós não abrimos mão de agirmos com responsabilidade. Não vamos ser pautados por pessoas movidas por forte emoção. As reuniões com os representantes do Governo têm sido tensas e nada é decidido na mesa de negociação; quando recebemos a proposta, levamos à votação da categoria, que aceita ou não. Sempre foi e será assim. Todo o conhecimento dessa nossa trajetória como representante, repito, legítimo, tem sido canalizado para defender os direitos coletivos, tenho minha consciência tranquila disso. Nossa Associação é uma ferramenta importante para a categoria. O momento é de união, não podemos e não vamos fraquejar. Só há vitórias se houver luta, debates, dentro do bom senso, sem agressões, de forma racional. Ser policial não é apenas profissão, é vocação. Nosso compromisso é com a população, não dá para acreditar em Governo. A saída é lutar com responsabilidade. Temos o compromisso de bem servir à população e o Governo, qualquer que seja, tem a obrigação de prover meios para que possamos prestar esse serviço de qualidade. Até 30 de setembro, o Governo do Rio Grande do Norte tem o prazo para nos dar uma resposta. Depois disso, os rumos da nossa luta serão decididos pela categoria”, relata o “sub Eliabe”.